quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Descanso em catarse

Estou exausto.

Já não sei como aguento, talvez esteja começando a perder minha lúcida sanidade, mas acho que sempre foi assim, não ? Só sei que eu to cansado.

To cansado de nunca falar o que quero, e de ninguém querer ouvir o que tenho a dizer.

To cansado de dizer tanto, e não ouvir nada em resposta.

Ah! To cansado de falar, to cansado de ouvir, to cansado de ver tanta ignorância.

To cansado, quero descansar mas não aguento mais dormir.
To cansado de dor de cabeça, e do vazio do cotidiano.

To cansado das mesma coisas, e das coisas novas também, é tudo bosta.

Talvez esteja querendo demais, mas to cansado de não ter o suficiente.
Parece que o importante nunca é bastante, enquanto as inutilidades enchem meu saco todo santo dia.

To cansado de santo, de deus com D maiúsculo, de diabo, buda, Silvio Santos, o caralho que for.
To cansado do Brasil.

To cansado de não me agradar para agradar outros.
To cansado de mentir o tempo inteiro, e ainda mais cansado de ouvir a verdade.

To cansado de ter tanta coisa para fazer, e tão pouca vontadade de fazer.
To cansado de viajar e não ir a lugar algum.
To cansado de não saber o que quero, e de querer o que ninguém ainda sabe como conseguir. Também já não aguento ser outra pessoa o tempo inteiro, e quando posso ser eu mesmo, adivinha, estou muito cansado.

To cansado de tanto cansaço.

To cansado de ajudar todo mundo, e de ninguém perceber quando quero ajuda.

To cansado de tanta coisa, e desse cansaço todo ser normal. To cansado do normal também, mas o diferente é a mesma merda.

To cansado de pensar nisso tudo, mas fico mais cansado quando não consigo pensar em nada mesmo.

To cansado de pensar nela.

To cansado até de descansar, quero mais, mais pessoas, mais rostos, mais atitudes.
Mais vida...

To cansado das mesmas músicas, e dos silêncios entre as conversas.

Ah! Mas das conversas nunca me cansarei, é tudo que me resta. Conversar com essa folha de papel, e quem sabe com você, se não estiver cansada demais para ler isto.


O fato de sempre estar cansado, é até um pouco aliviante, não gosto de muito conforto. (Algum seria legal, mas sei que é pedir demais)

Ah, to cansado dessa gente que vive cansada, chega, vamos fazer algo, uma cerveja na lapa talvez ?

Já não aguento mais, agora tenho certeza. Mas to cansado de tanta certeza na minha vida. Então quem saiba eu consiga, posso estar errado sobre isso tudo. Sabe, olhar de outro ponto de vista. Posso não estar cansado, e sim irado. Talvez seja essa raiva acumulada aos poucos, esse veneno que tomamos de gole em gole, por estarmos cansados demais para cuspir na cara de quem nos empurra goela abaixo.

To cansado dos meus pais, mas eles parecem não se cansar de mim.(Apesar de o dizerem com frequência)

Talvez seja eu o problema.
Talvez só esteja cansado demais para achar uma solução. Talvez não seja eu.
Será esse o problema com a humanidade ? Todos estão tão cansados que não conseguem fazer outra coisa sem se cansar mais ainda.



Então chega ! Já me cansei de ficar tão cansado. Ou melhor, irado. Puto, melhor ainda.

To puto com essa gente cansada que não faz nada, vou tirar um cochilo na rede com todos os meus problemas, vou descansar correndo perigo, vou esquecer de todos os cansaços.
Sei que um dia eles voltam, mas to cansado de me sentir mal o tempo inteiro.
Agora vou dormir um pouco, e quando acordar não vou estar cansado com nada, porque ao que parece, já me cansei de tudo.

Ufa !

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Bagunça mental, nem tanto.

Como escrever quando não há clareza na cabeça ?

As idéias correm, pulam, param por um instante apenas para posar para uma foto.

Nada é como é, nada é limpo e claro e organizado. Há essa certa turbulência, esse não-sei-o-quê que espreita nossas vidas.

Nunca foi calmo, problemas sempre foram problemas, mas sempre há aquele momento em que eles se tornam bobeiras, se tornam inseguranças tolas que não apresentam perigo.

E quando esse momento acaba ? Esquecemos que essas coisas não são de verdade, ou começamos a acreditar em seu poder destrutivo ?

O que acontece, é que por um acaso do destino, sei lá, talvez tenha a ver com júpiter em saturno na casa de áries, ou talvez só encolhemos e deixamos as preocupações crescerem, e de repente não somos mais tão invencíveis e o chão ao nossos pés parece ter 10 centímetros de diâmetro. É como as garças equilibradas em varas de bambu, mas sem a graça e o equilíbrio. E com dez pratos numa vareta em cada mão.

Sabe, não passa de besteira, o que pode ser tão forte que nos impede de sorrir ? De lembrar que a vida é boa ?

Se temos que atravessar esse pântano de medos, tristezas e decepções para enfim chegar à praia limpa, serena e paradisíaca com a qual sempre sonhamos, atravessemos com coragem. Criemos fé para seguir em frente. Precisamos acreditar que logo depois dessa mata fechada e escura, há areia quente e um mar tropical nos esperando, com água de coco e uma cadeira de praia.

Não podemos nos perder nesse pântano, pois aí é mais difícil sair dele, e acredite, tem gente que tá perdida até hoje, e tem outras que nem voltam desse lugar negro em nossa existência.

A gente esquece que nos piores lugares surgem as criações mais impressionantes desse nosso mundo, mas sempre se lembra, quando estamos na praia, que o tempo pode fechar e uma chuva pode estragar tudo.

Então vamos lá, é ruim mas vai melhorar daqui a um tempo, basta que encontremos uma flor-de-lótus para renovar nossa fé, e ter esperança de que mesmo nas piores situações, podemos sobreviver. E que tudo isso, esse marasmo, cansaço, essa desilusão e certeza de que tudo está perdido, não passa de uma noite mal dormida, e que amanhã, quando acordamos com um belo pôr-de-sol, descobriremos que não é preciso mais nada para se ter uma noite maravilhosa e um ótimo sono.

E enfim, depois disso tudo, percebemos que o que era uma dor de cabeça, e uma folha em branco a dez minutos atrás, agora é um sorriso estampado no rosto e três páginas com uma mensagem que sempre esteve dentro da gente, bem escondida naquele pântano onde ninguém deseja procurar, mas que de vez em quando, nossa única salvação é encontrá-la.

Somos idiotas.

Para todos os idiotas, que assim como eu, sem saber porquê, sempre foram chamados assim.

Bom, se a gente pode ser o que quiser, quero ser um idiota. Porquê ? Bom, porque só um idiota faz o que normalmente fazemos.

Na verdade...

Só um idiota ri do que a gente normalmente ri.

Só um idiota gosta do que a gente normalmente gosta.

Só um idiota sonha com o que a gente realmente sonha. E só um idiota maior ainda acredita nesses sonhos.

Só um idiota pensa no que a gente normalmente pensa, e só querendo ser muito idiota para entender o que a gente normalmente diz. (Coisa que ninguém quer ser, o que só faz a gente paracer mais normalmente idiota).

Será que é por isso que nos chamam assim ?

Acho que só um idiota para jogar a vida fora como a gente normalmente joga.

Mas também, com essa vida que levam os normais, prefiro continuar idiota, porque nos dias de hoje é preciso ser muito idiota para conseguir ser feliz como a gente normalmente é.

Porém, mesmo com todos esses achismos, ainda não entendi o porquê de minha idiotice, talvez seja muito idiota para isso, e por isso continuarei assim, um idiota.

Ps: O que os normais parecem esquecer em suas tristeza rotineiras, é que já foram idiotas um dia, antes de serem infelizes.

Por isso penso que muito mais idiota é quem deixou de sê-lo. Esses são tão idiotas que não valem a pena.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Uma noite de chuva

Alguém pode me dizer porque a sirene da polícia é tão irritante ? Ainda mais quando se está dentro do carro onde toca essa maldita sirene.

Ok, eu fui preso por porte de drogas, mas hoje em dia quem não usa é porque conseguiu o Almacard®, e isso não é algo que se queira se você ainda tem a capacidade de pensar.

Não sei qual é a pena, ou se o guarda vai aceitar o meu dinheiro, o que vai acontecer comigo eu só posso imaginar.

Ah ! Isso me faz lembrar de Paquetá, mais precisamente uma sexta feira em que choveu horrores e pavores...



-Ei ! Acorda Arnaldo ! Vamos, o sol tá ótimo !

-Hã ? Tá bom cara, o sol não vai embora, deixa eu dormir...

-Você que sabe, eu vou pra racha, se você quiser ir depois.

-Tá, claro, tá mais que certo....

Eu voltei a dormir, lógico. Não sou de me cortar todo, e o sol ainda virá outros dias, eu não vou deixar de dormir bem em Paquetá, fala sério.

Quando acordei eram dez para as seis, levantei, comi, e fui dar uma volta para refrescar a cuca. Lógico que eu estou falando de fumar, afinal, não há muita mais coisa que se faça aqui.

Voltei, comi o jantar, tomei um banho e fui pra cama, quando levantei já eram nove e quinze. Lógico que eu saíria atrás de um vinho, ou um cigarro e não voltaria tão cedo.

Quando saí estava gotejando, mas não choveria, e se chovesse, água nunca matou ninguém, certo ?

Nenhum sinal do meu amigo, então esqueci o vinho. Parti para uma rua aparentemente deserta, encostei-me na árvore, e acendi meu cigarro. Não era muito cheiroso, admito, mas não havia ninguém por perto para reclamar do cheiro.

Era o que eu pensava.


-Oi, boa noite. Você podia me dizer onde é a pedra da moreninha ?

-Boa noite senhor. A pedra está um pouco longe, mas é só andar e você chega lá, segue por aqui e depois vai pela direita.

-Obrigado, viu ? Até mais

-Inté.

Não sou de falar inté, mas nunca veria esse cara de novo, semana que vem eu saio daqui, e não tenho planos de voltar, mas não penso que me esquecerei tão fácil dessa ilha.

Novamente, era só o que eu pensava, pois depois de dar alguns passos, atender e desligar o telefone, aquele mesmo sujeito dá meia volta e começa a vir na minha direção.

-Boa noite, eu sou André.

-E aí André, como vai ? Me chamo Arnaldo.

-Então Arnaldo, eu ia lá pra moreninha, mas minha namorada disse que vai chover muito, quis ficar em casa. Você não se importa se eu acender um cigarro e ficar aqui um pouco, né ?

-De maneira alguma André, vai em frente. Mas sua namorada não vai se importar de você ter preferido fumar um cigarro com outro homem e deixado ela esperando ?

-Cara, ela é uma vaca, e eu não volto pra casa agora, quem não quis vir foi ela.

-Pois então, está tudo bem, se me permite posso dar um trago em seu cigarro ? Os meus estão acabando.

-Não queria que fosse de outra maneira Arnaldo, toma aí.


E foi nesse instante que a chuva começou a apertar, me escorei na árvore, e continuei fumando com o novo conhecido,André

-Arnaldo, essa chuva está realmente forte, e acho que não vai parar tão cedo, vamos para debaixo daquele toldo, ficaremos mais protegido da chuva com certeza.

De fato a chuva apertara muito mais do que eu esperava, e foi quando a chuva começou a ter essa força, que me lembrei que água já matou muita gente sim !

Corremos para debaixo de um toldo pequeno, depois fomos para outro maior.

-Porra André, o primeiro tava melhor ein ! Esse aqui tá chovendo horrores nas nossas pernas !

-Tá certo cara, mas se voltarmos agora pode molhar o cigarro, e sabemos que temos pouco. Vamos esperar a chuva diminuir para ir embora, nossas pernas podem ficar molhadas, as roupas que devem ficar secas.


Esperamos. Muito. Nunca gostei de relógio, e a bateria do celular do André tinha acabado segundos antes de vermos que já passava das onze. Estava pensando que iria ficar a marugada toda com ele, mas má companhia não era, e não me importaria de esperar mais um pouco.

-Ei ! Já sei ! A gente só não volta pro toldo por causa do cigarro. Vamos fumar aqui mesmo e depois voltamos para casa molhados, qual o problema ?

-Ótima idéia !

Não conseguimos acender o cigarro, porque agora chovia demais, e ventava, então com o cigarro na mão, o isqueiro na outra, as duas bem fechadas, corremos para debaixo do toldo da onde viemos. Nem o cigarro, nem o isqueiro molharam, e o agora estávamos cobertos, sem chuva na perna, no cigarro, ou em qualquer parte.


-Uhul ! Não disse que era melhor aqui, André ?

-Falou e disse amigo, agora não vamos mais perder tempo, e acendamos o bendito cigarro !


Ficamos na chuva por muito mais tempo, foi-se um cigarro, foram-se dois, e antes mesmo da chuva fraquejar, já eramos melhores amigos.


-E aí André, chegamos no final. A chuva diminuiu, mas parece que vai demorar pra acabar. O que diz de acendermos o último cigarro de nossa noite ?

-Katia Flávia, Arnaldo, Katia Flávia...


E foi nesse último cigarro, depois de tantos, as tantas horas da madrugada, estávamos fumando quando um carro passa e para na nossa frente.

Para os que ainda não sabem, os únicos carros de Paquetá são os que você não quer encontrar, pois nessa ilha, só dirige quem tem distintivo.


-O que vocês estão fazendo senhores ? E porque esse cigarro está aceso ? Entrem já no carro ! Agora !


Não tínhamos escolha a não ser entrar no carro da polícia, com a maldita sirene tocando. Quando entramos o policial desligou a sirene, voltou-se para nós, e disse bem calmo:

-Vocês sabem que é proibido fumar em Paquetá, não senhores ? Vocês estavam esperando o quê, debaixo daquele toldo pequeno ? A chuva começou tem horas, não me diga que vocês ficaram esperando ela passar desde as dez?

-Seu guarda, a gente estava sim esperando desde as dez, meu amigo inclusive estava lá a mais tempo que eu. Quanto ao cigarro...

-Que isso ! Não precisa falar mais nada ! É completamente compreensível que, devido a longa e cansativa espera, os senhores acenderam o cigarro porque não queriam correr o risco de molha-lo, e visto que estão esperando desde o início da chuva, não haveria nenhum problema em fumar enquanto a chuva não terminava.

Acredito que não teve outro momento na minha vida em que fiquei tão surpreso, e agradecido. Digo mais: Acredito que não teve nenhum outro momento em que simpatizei com um homem da lei.

-E vamos lá, eu não sou nenhum monstro. Se quisesse ser como os outros policias não teria entrado para a Polícia Verde de Paquetá. Agora, volte a acender o cigarro, e vamos terminar de fumá-lo, depois eu deixo-os em casa, são e secos. Bom, pelo menos mais secos que sãos, não ? hahaha

E foi com esse última risada do policial, que terminamos o último cigarro de nossa aventura. Depois o guarda cumpriu o prometido e nos deixou em casa.




Não me esquecerei jamais daquela noite, e agora me recordo que tenho o telefone daquele bom amigo, e no final ele disse-me que voltaria pra São Paulo, e aqui estou eu, mais uma vez no carro de um policial, mas acho que esse não me deixará em casa, e nem será tão amigável quando o outro companheiro da PVP. Bom, acho que o André ficará feliz em receber uma ligação minha, afinal, ele parecia um sujeito diferente, sem muitos amigos. Posso estar errado, mas eu sei que o número dele é o que estou discando agora, na delegacia, e espero que ele atenda esse telefone, que só toca e toca.

Na pior igreja possível.

Esse domingo fui para a igreja. Havia me esquecido a experiência, e não faz mal uma vez ou outra, certo ? Expandir os horizontes, sabe ?

Mas devo-lhe dizer, foi uma experiência e tanto !

A igreja era pequena, menor que a menor que existe, porém com uma incrível quantidade de fiéis! Era toda branca e,para minha surpresa, ao invés de um padre era uma freira mulata que ensinava as orações aos fiéis.

E que rezas !
Eram tantas que minha cabeça doía só de ouví-las. Os dogmas se faziam todos a base das orações, e é claro, existia uma oração principal, e as diversas outras se dividiam em dois grandes grupos.
Um era fervoroso e completamente devoto as orações dessa estranha igreja. Eram fiéis tais quais, assim como, da mesma forma, que subordinados.
Já o segundo grupo era mais distinto, eles ainda seguiam as orações, mas era uma coisa mais simples, as orações eram independentes, e nao se seguia um bloco, mas, porém, entretanto, cada uma em si. Que por sua vez era regida por uma ordem, ou uma co-ordem, ao que parecia.
O primeiro gupo acreditava em sua santíssima trindade, e seus líderes, os três profetas com nomes grandes e complicados eram raros e sábios. E os discípulos, com nomes ainda mais difíceis, eram numerosos e curiosos. Nomes que nunca antes vi, que envolviam algo com objetos, e completavam algum tipo de nome, acho eu. Eram tantos que não me dei ao trabalho de decorá-los.

Quando o segundo grupo tomava parte nesse enigmático ritual, formava duas filas, quais os nomes não me passam na cabeça, mas algo me dizia que eles eram aidéticos, ou algo assim.
Enquanto uma fila permanecia inalterável, não podia dizer o mesmo da segunda, que se mostrava adversativa a primeira. As orações proferidas por essa última fila, tinham batidas e uma sonoridade tão aditiva que ninguém ficava parado ! Uns fiéis não eram de acordo; os demais mostravam outras alternativas, apresentavam explicativas, mas só as conclusivas pareciam saciar o desejo desse fiéis mais revoltos.

Após o que me pareceu o término do espetáculo, voltei a minha casa, extasiado e confuso, pois nunca tinha tido um dia como aquele na igreja, nem quando fequentava igrejas regularmente.
Que igreja era aquela ? E que tipo de religião confusa e desnecessária habitava aquele lar ?


A dúvida sobre a igreja corria em minha cabeça até pouco tempo, quando recebi um telefonema de meu amigo, perguntando-me o que aconteceu, que eu nunca lhe dei explicações sobre o que fiz. Ao perguntar-lhe o que fiz, ele me lembrou de algo que havia, digamos assim, tomado um "chá" de sumiço
de minha cabeça.

O domingo era plena terça-feira, e a igreja não passava de uma aula chata de português.



Ok, sem mudar o café-da-manhã, à partir de agora.

Quem se apaixona não tem olhos vermelhos.

Nossa paixão é ardente de tal maneira que meus olhos ferviam quando nos encontrávamos, sentia na pele o seu calor, mais profundo, e mais intenso, que qualquer coisa nesse mundo, e igualmente sentia sua leveza e suavidade, tão quanto a um simples queimar de brasas.

Não digo que a paixão morreu, isso jamais, mas não precisamos mais disso. Nosso relacionamento passou para outra fase, como sempre ansiei, já se tornal tão espiritual que nossas mentes se cruzaram, e hoje já não sou mais eu. Sou mais.

Me lembro de quando sonhava a vida com ela, a empolgação, a felicidade...
Eu fui diferente, sabe ? Quero dizer, prematuro. Ao invés de esperar ser escolhido, furei a fila e fiquei em segundo. E olha que fiquei sendo o segundo por um eternidade.
Talvez por isso, após nossos encontros, não era possível guardar segredos, pois bastava meu olhar encontrar o dos meus amigos, e perguntas não eram necessárias.
Hoje posso ser mais tranquilo, e sonhos bobos não tem mais aquela mágica infantil.
Agora já estou mais próximo do que serei, e o compromisso me permite guardar segredos, pois quem ainda não sabe, não saberá pelo olhar, e talvez nem por um exame completo.

O Homem de dedos amarelos

O homem dos dedos amarelos, apesar de seu contínuo sorriso e aparente simpatia, não era bem aceito pelos outros.
Diziam eles que o homem de dedos amarelos sofria algum tipo de mutação. Tinham certeza de que era uma deficiência.
Não importa o quão burro eles eram e o quão inteligente o homem de dedos amarelos provava ser, ainda o caçoavam e excluíam como se fosse a própria escória da sociedade.
O que o homem de dedos amarelos possuía de verdade, nada tinha a ver com mutação ou deficiência. Não. Ele possuía, na verdade, uma característica das mais normais entre os homem desse mundo.
Ele possuía uma paixão, uma paixão tão forte e verdadeira, que encontrava com sua amada diariamente. Até que um dia ela lhe pediu, sem dar mais explicações, para que deixasse seus dedos amarelos, e ele deixou sem hesitar.
Ela não pedia mais, e ele mantinha a cor de seus dedos amarela, simplismente por amar ela.
A paixão do homem de dedos amarelos era tão significativa para ele, que um dia ele parou de se importar com os outros.

E a história se repete ainda hoje, os homens de dedos amarelos são tratados com desprezo, mas não dão a mínima, pois estão tão cegos de paixão que seus olhos já perderam todo o branco que alguma dia existiu ali.

Mas quem pode culpá-los de sua paixão ? Só quem amarela seus dedos com o avermelhar do verde sabe do que estou falando.

Guerra

Estou no meio de uma guerra, mais perdido que cego em tiroteio. Na verdade mais perdido que um aleijado em tiroteio. Mais na verdade ainda, estou mais perdido que qualquer ditado possa expressar.
Essa guerra vai ter fim, e eu não gostarei desse fim, na verdade eu posso muito bem escolher quando será o fim, mas por medo decido por nada.

Estou cheio de verdades, não é? Mas esse é o ruim, as verdades. Você pode viver uma ilusão, e tudo ser belo e você ser famoso e a vida ser vivída. Mas a verdade te trai, pior que uma cascavél, pior que uma apunhalada nas costas dada friamente pelo seu melhor amigo, pior que qualquer coisa na vida, e muito provável também que na morte.
Eu sempre fui medroso, e não consigo encarar essa palavra, que bem grande e estampada na minha cara, me lembra a todo segundo que respiro que tenho que escolher algo de verdade, e tenho que sair do mundo imaginário onde sou tudo.

É, eu sou tudo, mas a minha cabeça está uma bagunça... É lá que ocorre a guerra, e os combatentes são vários, tão variados que não há como dizer quais são, pois tem alguns que nem sei de que lado estão. Venho sendo bombardeado por Baudelaire, Audoux, Fernando, mafiosos e pianistas que me enchem de palavras que, dizendo eles, me ajudarão a vencer a guerra. Mas também sou fuzilado por Tims Burtons, Woodys Allens, Tarantinos e tantos outros cabeças que não sei o nome, que me enchem de imagens e cenas inesquecíveis, e garantem à minha pessoa que esse pode ser o triunfo final que estou esperando para que essa guerra intermínavel cesse. Porém há também as lapeadas cruéis e sem piedade, cheias de redundâncias, de Jotas, Erres, Cês, e melodias tocadas pelos açoites ao acertarem em cheio meu crânio que parece viajar para outro lugar a cada nota emitida pela dolorosa zumbada que o terrível chicote musical emite, e é horrível pois sabem que nunca serei capaz de imitá-los e esse o porquê de tanto escárnio acompanhando essa dor alumbrante que sinto ao deparar-me com esse grupo, e a ironia logra do poder que exerce sobre mim para que eu saboreie ainda mais esse miraboalnte grupo.

O término precoce da vida aparece para mim não como solução, mas como refúgio, um meio de escapar dessa guerra para sempre. Mas apesar de medroso, nunca fui de fugir de minhas batalhas, então essa fuga passa longe de minhas possíveis soluções.

E fora de minha cabeça, nessa marmórea vida que se segue a cada dia, minha guerra infinda nada mais é que uma minúcia de adolescente, uma fase que todos passam. Mas porque então, para mim está sendo tão díficil trespassar por essa linha imaginária, que separa os pífios dos magnos ?

Paixão secreta.

Eu sei a palavra, eu sei a resposta para tudo.
Essa palavrinha, silenciosa e mortal. Sublime. Profana. Corruptora. Absoluta.

Fujo dela, mas sempre com passos pequenos, para não perdê-la de vista, pois um dia posso vir a precisar.

Não há um dia sequer em que ela não me venha a mente, um dia sequer sem que ela me esnobe, um dia sequer sem que ela me chame para a cama, onde teremos nossa primeira noite de núpcias, primeira e última. Cruel sedutora de olhos negros, pare de me tentar, pois sinto uma incontrolável vontade de te abraçar, tão grande como o prédio em que te encontrarei.
Não quero, mas entro em conflito, não há histórias boas de quem à encontrou, e mesmo assim sou seduzido, e conduzido lentamente para mais perto dela.
Agora mesmo, enquanto escrevo a metros e metros de altura, sinto o formigamento suave e gelado de seu toque em meu ombro, viro-me e a palavra aponta para a janela com grades desaparafusadas.

Até agora ainda não nos beijamos, mas não sei quanto tempo nos resta até o fim. Estará ele mais próximo do que espero ? Ou para minha surpresa, estará ele distante, tão distante que não consigo vê-lo chegar ?

Triste vítima que sou de tua profunda e grave voz, e alegre testemunha de sua grandiosidade e certeza. Ou seria ao contrário ?

Será ?

-Diga-me cérebro, qual caminho devo seguir ?
E cinco túneis são iluminados pelo cerébro.
-Mas há tantos, por qual devo ir ?
E os cinco túneis continuam acessos.
-Estou vendo. Nas paredes dos túneis vejo diferentes situações, vejo números e preocupações, felicidades e contentações, mas nada me agrada, apenas me iludem para que pareçam o caminho certo.
-E são, meu amigo, esses são os caminhos que te indico, e os motivos você verá em cada um. Todos são reais, mas não lhe ofereço mais nada, apenas a realidade crua e fria.
-Então como indica-me um caminho sem sonhos ? Um caminho sem vida, apenas artificial ?
-Não, não se engane, há sonhos em meus caminhos, sonhos que se tornam realidades e verdades, mas são sonhos comuns, sonhos insípidos. Não há a esperança, apenas a verdade, a aconchegável e segura verdade.
-Esses caminhos são tentadores, há vida neles, mas não a vida que quero para mim, a vida que não tenho certeza se terei.
-Sim amigo, é verdade isso, mas o mundo é real e a vida é mais real do que parece, por isso não deve arriscar tudo por um sonho, ao invés de seguir com segurança um caminho com uma vida tranquila.
-Agora entendo. Seus caminhos me atraem para o mundo real. O que farei ? Desejo ser um sonhador, mas desejo ainda mais ser algo real.

-Estou perdido, não sei o que faço...

E esse ser, parado em seus próprios questionamentos, cochichava para si, a seguinte frase:
-Qual será o certo ? Qual será... ?

Qual

-Diga-me coração, onde devo ir ?
E bate o coração três vezes.
-Por aqui ?
E bate o coração três vezes.
-Gosto daqui... Mas porque não por ali ?
E bate o coração três vezes na mesma direção.
-Você prefere aqui, né ? Mas veja, há outro caminho, porque não ir por lá ?
E bate o coração três vezes na mesma direção.
-Eu falo a língua dos homens, chega de batidas e dê-me respostas !
E dessa vez o coração não bate nenhuma vez.
-Deixe-me entender porque ir por aqui e não por ali, estou perdido !
Mas continua o coração sem bater, e sem dar explicações.
E esse frustado ser, agora confuso também, se recorda de inúmeras vezes em que o coração acertara o caminho, mesmo sem dar-lhe explicações, e de outras inúmeras em que ele errara, e continuou sem dá-las.
Se recorda também, de não se recordar de alguma explicação do amigo, nunca ouvira nada além de batidas.
Apaixonara-se toda vez pelos caminhos indicados pelo inocente amigo, amara com dez vezes mais paixão os caminhos certos,e se arrependera cem vezes mais nos caminhos errados.
-Agora entendo. Esse seu caminho nada mais é que instinto. O que farei ? Temo me aventurar em jogos de azar, e temo ainda mais perder oportunidades.

-Estou perdido, não sei o que faço...

E esse ser, parado em seus próprios questionamentos, cochichava para si, a seguinte frase:
-Qual será o certo ? Qual será... ?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Uma noite inteira na lapa.

E foi assim que começou, era de noite e estava sem dinheiro, tinha gastado comprando aquela delícia amarela que chamam de cerveja. Foi quando passou pela rua um ônibus diferente, com nada escrito, a não ser um "Magic bus" no boné do motorista.

-Passa no tijolinho ? - Perguntei.

-Esse ônibus passa onde você quiser meu filho, agora sobe ou dá passagem, porque os músicos querem subir.

-Músicos ?- E quando virei para trás percebi que havia um grupo com instrumentos pronto para embarcar.

Não pensei duas vezes e subi, e logo atrás de mim subiram os músicos.

-Ótimo ! Vamos botar esse show na estrada ! - Disse o motorista completamente empolgado pela adrenalina e emoção que nos aguardavam. Adrenalina e emoção essa que eu nem fazia idéia.

-E eu não quero saber nada de química aqui ein ! Um só já é o suficiente nesse ônibus. - Advertiu o motorista enquanto dava uma longa e barulhenta assoada no nariz.

E lá se foi o ônibus, em seus cento e vinte por hora. O estranho porém, é que o ônibus era absurdamente grande, ninguém que o visse por fora diria que ele seria tão longo e largo por dentro. E olha só ! Ao invés de bancos, havia sofás, apoios para guitarras, um mini bar e até mesmo uma máquina de Pinball. Ness mesmo momento pedi para descer, pois não tinha dinheiro nenhum comigo. Foi quando um dos músicos me deu um pandeiro e disse que era só eu tocar que não tinha problema. Esse músico devia ser famoso, pois me lembrava dele de algum lugar. Tinha olhos azuis, rosto de galã, voz de cantor e falava em inglês. Quando lhe perguntei o nome ele apenas me disse Roger.

Sentei-me no sofá, me ofereceram bebida, aceitei e ficamos tocando. E como eles tocavam bem ! Me lembrava as primeiras vezes que ouvi The Who, tanto que pedi para eles tocarem umazinha só deles, e minha surpresa foi que eles nunca ouviram falar desse tal Who. Minha outra surpresa porém,(dessa vez astronomicamente maior que qualquer outra que eu já tenha tido) foi quando eles começaram a tocar um cover perfeito de The Seeker, segundos após negar qualquer conhecimento sobre a banda inglesa. Nesse momento me bateu uma idéia que preferi deixar para depois, mas não deu para segurar minha emoção quando ouvi alguém chamando um Keith, e logo em seguida esse respondeu. Eu não podia acreditar que estava no mesmo ônibus do The Who, deviam estar em turnê, isso explicaria o ônibus esquisito, devia ser da banda !

Ou eu já tinha morrido ou estava muito alucinado, disse para mim mesmo que nunca mais iria comprar cerveja em bar desconhecido.

Nesse momento o ônibus para e dá carona para uma mulher, uma hiponga. Dessa vez ela não era estranhamente familiar, eu conhecia ela como reconheceria um amigo de infância. Esperei ela passar na roleta para ter certeza, e quando tive tudo que consegui dizer foi:

-Puta que pariu ! É a Janis Joplin !!!